quarta-feira, 3 de junho de 2009

Morador de Rua é Aprovado em Concurso Público

Nessa mesma época, há 2 anos atrás, ele só era mais um inscrito no Concurso do Banco do Brasil de 2007. Mal sabia ele, que essa prova mudaria a vida dele.Todos nós sabemos que é difícil passar em Concursos Públicos.Eu, por exemplo, passei em 3 concursos dentro das vagas, e até agora estou esperando.Eu já fiz 30 concursos,e aprendi que a concorrência somos nós mesmos. Por isso, estou colocando a entrevista exclusiva que Ubirajara Gomes da Silva deu para a Folha Dirigida em 2008 :

"FD :Conte um pouco da sua história antes de se tornar um dos mais novos servidores públicos do país.
Ubirajara Gomes da Silva - Morei na rua desde os meus 15 anos. Meus pais me maltratavam muito e, por isso, saí de casa. Minha família era muito desestruturada. Depois disso, dormi em praças do Recife. Fiquei doze anos na rua pedindo esmolas e, com o dinheiro, comprava comida e ia para as lan houses estudar.

FD :Você nasceu no Recife? Tem irmãos? Você mantém contato com toda a família?
Ubirajara Gomes da Silva - Nasci em Recife. Tenho um irmão, mas não mantenho contato com eles (minha família).

FD :Você sempre gostou de estudar? Quais matérias você mais gosta?
Ubirajara Gomes da Silva - Sempre adorei estudar, principalmente, Matemática; tanto que me matriculei em uma escola pública para terminar os meus estudos. Além de estudar, outras coisas me levaram para a escola. Em primeiro lugar, a merenda, pois só comia de manhã. Depois, conseguir a carteirinha de estudante, que dava acesso em alguns lugares, e tentar estágios para ganhar uma grana, conseqüentemente, um trabalho.

FD :Quando você teve a idéia de realizar um concurso público?
Como você acompanhava a realização dos concursos?
Ubirajara Gomes da Silva - Foi através do incentivo de amigos. Comecei a estudar em bibliotecas públicas e utilizava jornais impressos e sites, entre eles a FOLHA DIRIGIDA.

FD :Antes do Banco do Brasil, você já havia participado de outros concursos? Qual foi o critério para escolha os órgãos?
Ubirajara Gomes da Silva - Escolhi alguns (concursos) para a área administrativa. Entre eles, auxiliar administrativo, na Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf); operador de produção, no Laboratório Farmacêutico de Pernambuco (Lafepe); e escriturário, no Banco do Brasil. Eu já tinha tentado para a Escola de Sargento de Armas (ESA), mas não passei nem na primeira fase.

FD :Como foi sua preparação para as provas? Quantas horas você estudou por dia?
Ubirajara Gomes da Silva - Eu já tinha uma boa base de Matemática e Português. Estudava muitas horas. Me considero um auto-didata. Para o Banco do Brasil, eu peguei a prova do concurso anterior três dias antes da sua realização. Por ter uma conta de estudante no BB, já que era estagiário da Agência Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), tirava dúvidas com os funcionários sobre Conhecimentos Bancários.

FD :Quem pagou a sua inscrição? Como você adquiriu conhecimentos de Informática?
Ubirajara Gomes da Silva - Meus amigos pagaram as inscrições. Consegui através de alguns livros e aproveitava para entrar treinar em locais públicos, além das lan houses.

FD :Você acredita que deveria existir uma isenção de taxa de inscrição para candidatos que estão na sua situação?
Ubirajara Gomes da Silva - Sim. Eu, por exemplo, não fiz o concurso da Caixa Econômica Federal, que a prova é fácil, porque não tinha dinheiro para pagar a inscrição. Muita gente não faz concurso porque não tem dinheiro para pagar a taxa de inscrição. Nem todo mundo tem R$60 no bolso.

FD :Vocês esperava passar em quatro dos cinco concursos que realizou?
Ubirajara Gomes da Silva - Eu não esperava passar em nenhum, mas acabei passando. Em alguns eu fui classificado, mas fiquei muito longe de ser aprovado. Aí no Banco do Brasil, que tinha 19 mil inscritos, fiquei em 136º entre os 171 classificados.

FD :Por que você escolheu o Banco do Brasil para ser servidor?
Ubirajara Gomes da Silva - Eu sempre quis trabalhar na área bancária. Essa base vai servir para abrir o meu próprio negócio.

FD :O que você pretende fazer futuramente com o seu salário? Atualmente, qual o seu maior sonho?
Ubirajara Gomes da Silva - Meu salário agora só vai servir para pagar dívidas. Isso vai durar um ano, mais ou menos. Futuramente, quero comprar uma casa, uma televisão, um computador, enfim, ter uma lar.

FD :Você pretende dar continuidade aos seus estudos?
Ubirajara Gomes da Silva - Quero sim, e também quero realizar outros concursos. Quero continuar no Banco do Brasil, mas quero testar os meus conhecimentos. Vou tentar algum concurso para o algum tribunal, entre eles, o Tribunal Regional do Trabalho para ganhar mais, além do medo que eu tenho de privatizarem o Banco do Brasil. Espero que nunca façam isso.

FD :Alguma instituição de ensino já ofereceu bolsa de estudo para o curso superior? Em que área pretende se formar?
Ubirajara Gomes da Silva - Não, ninguém não me ofereceu nada. No futuro, eu quero fazer Administração, Ciências Contábeis ou Economia.

FD:Agora, como servidor, o que a sociedade pode esperar de você?
Ubirajara Gomes da Silva - Eles podem esperar um bom funcionário. Prestativo e responsável. Na minha opinião, existem funcionários públicos que não gostam do que fazem. Eu vou ser o contrário disso. Vou tratar todos muito bem e fazer sempre o melhor possível.

FD :Qual a importância do concurso público para a democratização do acesso ao serviço público?
Ubirajara Gomes da Silva - É muito importante. É a forma que tem mais lisura para se conseguir um emprego. É a forma mais democrática atualmente.

FD :Que mensagem você deixa para os candidatos que passam por dificuldades e estão em busca de aprovação em um concurso público?
Ubirajara Gomes da Silva - Primeiro, não fazer concurso para passar e sim, fazer até passar. Concurso público, você faz um e não passa, mas sempre se consegue uma lição que servirá para outros. Conheço pessoas que já ficam com medo de não passar antes de fazer a prova. Creio que não pode ser assim."

Fonte: Folha Dirigida

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